A tragédia de Ricardo Boechat e a tragédia do jornalismo crítico no Brasil

JM Cunha Santos
Em meio aos muitos e sinceros lamentos pela tragédia que vitimou o jornalista Ricardo Boechat e alguns outros lamentos não tão sinceros, mas frutos da benemerência que a todos compunge diante da morte, precisamos entender que o próprio jornalismo crítico vive mais uma, entre as muitas tragédias que já viveu no Brasil.
Boechat representou, e muito bem, esse jornalismo que buscou desvendar e denunciar ideias obscurantistas, como as que elegem supremacias, patrocinam censuras, defendem preconceitos e garantem impunidades a uma casta social de intocáveis no poder e semideuses endinheirados imunes diante das leis. Esses também lamentaram sua morte, talvez que muito mais por conveniências dogmáticas e comportamento cristão que por concordarem com a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão.
Mas o jornalismo crítico tem sido uma pedra no sapato de todos os que ungem o autoritarismo acima das convicções democráticas e do estado de Direito. O número de jornalistas processados no exercício da função de formar e informar a opinião pública demonstra isso muito bem. A judicialização do jornalismo crítico que, com o advento da democracia e da Constituição Cidadã de 1988, substituiu solenemente a censura e a censura prévia, está nos autos e decisões de muitos tribunais.
Durante recente seminário sobre os 30 anos da Constituição de 1988, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, disse que não se deve transferir ao Poder Judiciário todos os conflitos que existem na sociedade, pois que isso demonstra o fracasso das outras instituições. Mas foi para onde transfeririam todos os conflitos gerados pelo jornalismo crítico, inclusive esquecendo remédios jurídicos mais apropriados, como mediação e conciliação e condenando jornalistas a indenizações impagáveis. Isso, ao tempo em que alimentava a autocensura, fazia do Poder Judiciário o ator jurídico e o ator político no Brasil.
Declarações de ministros, deputados recém-eleitos e do próprio presidente da República, revelam uma grosseira opção pelo autoritarismo dos que atualmente detém o poder no país. Como dizer a uma mulher, por exemplo, que ela não merece ser estuprada porque é muito feia. Chega-se aqui a um deplorável linguajar que não pode estar nas bocas de representantes do povo e, menos ainda, na boca de quem se candidata a presidir um país. É a voz plena do autoritarismo e do desrespeito ao ser humano.
Por outro lado, a tragédia do jornalismo crítico ressurge também com as novas mídias, onde ofensas cada vez mais graves são utilizadas contra autoridades de todos os gêneros o que, afinal, arma contra a imprensa os defensores da censura, do autoritarismo e da repressão.






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