Povoado Jacu – Aqui começou a Guerra pela Adesão do Maranhão a Independência do Brasil de Portugal

*Povoado Jacu*
– Aqui começou a Guerra pela Adesão do Maranhão a Independência do Brasil de Portugal –

Por, Tiago de Oliveira.

Imagens: Siqueira Junior.

Localizado a cerca de nove quilômetros da sede do Município de Itapecuru Mirim, este antigo topônimo já não abriga mais nenhum morador, os últimos estiveram por lá, pelos últimos anos da década de sessenta do século XX. A origem do nome, está relacionada com o Igarapé do Jacu, que por guardar poções de água, mesmo durante a estiagem e ser rico em árvores frutíferas, em tempos remotos abrigava bandos desta ave, o que batizou o curso d’água e concomitantemente a povoação próxima a ele.

Vale lembrar, que este povoado até meados do século XIX era rota de passagem, entre os morados da cidade de Itapecuru Mirim e atual cidade de Nina Rodrigues. Fato que, o tornava estratégico e com grande número de moradores. Destes, ainda é possível encontrar; cerâmicas, moedas, aterros de moradias, sepulturas e até mesmo espaço nominados pelos remanescentes como o morro dos anjos, onde eram sepultados os que recebiam esta adjetivação. Porém, sobre a “Guerra”, que batiza o texto deixo com os leitores a visão de quem presenciou os fatos, por meio do registro histórico que fora publicado no Jornal “O Conciliador” em, 18 de junho de 1823.

TEXTO I BASEADO NO OFÍCIO DO DIA, 11 DE JUNHO DE 1823 :

(sic) Tenho a honra de participar a Vossa Excelência, que sairão as três horas da tarde Desta Vila, uma guarnição comandada pelo Alferes Loné para averiguar a notícia, que dá conta que no lugar Jacu, distante uma légua e meia, ouvi-se tambores dos facciosos adeptos a causa da Independência do Brasil de Portugal. Sendo, a mesma verdadeira, toda a guarnição que foi fazer a averiguação sofreu uma emboscada, sendo recepcionados com tiros de espingardas. Após este fato, foi feita uma convocação geral a toda a guarnição da Vila e pelotões foram postos em frente ao Largo da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, na Rampa, e no Caminho que vem do Paú de Arara e um que vem do lugar Jacu. A cavalaria comandada pelo Tenente Carlos Peregrino Pereira de Burgos foi mandada a cerca de quatrocentas braças a frente em direção ao inimigo, momento que o inimigo foi encontrado postando uma peça de canhão sobre a estrada e usou a mesma para tentar atingir aquela cavalaria. Neste momento chegou para socorrer a guarda avançada e no momento do fogo cruzado nossas forças não sendo suficientes resolvemos retornar a Vila, sendo que, o inimigo aproximava-se com mais impeto. A nossa mosquetaria e a nossa artilharia sustentou o fogo que durou desde as dezesseis horas até à noite. Após este embate comandado pelo Tenente de Artilharia e pelo Tenente Burgos o inimigo fugiu deixando no campo uma peça de artilharia, algumas armas, uma caixa de guerra, três homens mortos, dois prisioneiros e um ferido, não imaginamos qual será a intenção dos inimigos para amanhã. Da nossa parte ficaram seis soldados feridos. Aqui segue tudo bem detalhado, sendo que o Tenente portador deste ofício poderá dar mais detalhes pessoalmente a Vossa Excelência. Deus guarde a Vossa Excelência.

Quartel 10 de junho de 1823, no Itapecuru Mirim ao sr. Agostinho Antonio de Faria, Governador das Armas da Província. José Felix Pereira de Burgos, Tenente Coronel Comandante Geral.

TEXTO III BASEADO NO 2º OFÍCIO DO DIA 11 DE JUNHO DE 1823.

Ilustrissimo e Excelentíssimo Srs,

(Sic) Ontem pelas três da tarde foi atacada esta Vila repentinamente pelos facciosos, em número de mil e oitocentos (1.800) homens sendo mil e seiscentos (1.600) a pé e duzentos (200) a cavalo, número certo pela relação, que nos fornecerão alguns daqueles que foram presos. O confronto durou três (03) horas e apesar do melhor posicionamento do inimigo, por ter agido de emboscada, a nossa tropa se comportou da melhor maneira possível e só não saimos com a vitória, por conta da falta de oficiais, pois me portei a frente e fiquei gritando com os meus subordinados, para ganharmos o ponto estratégico que o inimigo dominou, alguns soldados que queriam me acompanhar foram impedidos pelos oficiais que se achavam na retaguarda; ficando somente eu na frente com o Capitão João José Alves de Souza, o Tenente da Cavalaria Fernando Mendes de Almeida, o Alferes Domingos da Costa Lima, o Capitão Luiz da Cunha Machado, o Alferes José Oliveira Guimarães e o Tenente Ricardo Antonio Vidigal.

Neste conflito o inimigo se apassou do ponto, que logo disparou contra os nossos soldados a sorte é que nós estavamos no centro da nossa tropa e conseguimos atacar o inimigo com grande fogo, mas foi por milagre que escapamos com vida. Quando estavamos prestes a ser subjulgados pelo inimigo veio a ordem para partirmos em retirada, que por sorte fizemos a tempo de escaparmos, mas debaixo do fogo do inimigo. E logo em seguida fizemos barricadas em frente ao largo da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, neste momento ficamos mais preparados que o inimigo, que não suportou o nosso ataque e fugiu, por volta das dezoito horas, deixando uma peça de artilharia, uma caixa de guerra, várias armas, dezesseis mortos e quatro feridos. Nesta última ação não perdemos ninguém; ficando apenas alguns feridos, sendo um deles o Tenente de Pedestres Thimoteo Pedro Alexandrino, quando estava ao meu lado uma bala lhe quebrou a perna, fato que tem sido dolorido ver um oficial de tanto merecimento impedido de continuar a prestar os seus serviços.

Deus Guarde a Vossa Excelência, Quartel do Itapecuru Mirim, 11 de junho de 1823. Severino Alves de Carvalho, Capitão e Comandante Geral da Vila de São Bernardo.

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