Renato Russo 25 anos depois: mais atual, impossível...


Tony Marlon

Comecei a escutar Legião Urbana para conseguir assunto com uma garota que andava gostando, isso tem muito tempo. Ela sabia todas as letras, só não que eu gostava dela, e passava horas interpretando cada pedacinho de cada verso. E eu queria passar essas horas ao seu lado, mas a vida tinha outros planos. Geralmente é assim.

Ela passou a gostar de um grande e querido amigo e começaram a namorar. Ele encontrou uma companheira para os shows de rock que tanto ia, ela um amor que a fez conhecer bandas novas que tanto queria, e eu uma trilha sonora para lidar com talvez a primeira grande dor do mundo adulto. Foi ali que entendi que existe uma letra do Renato Russo para cada movimento da vida.

"Uma menina me ensinou
Quase tudo que eu sei"
Ainda é Cedo

A arte nos ajuda a organizar o sentir, a dar nome às coisas, naqueles momentos em que talvez não consigamos fazer isso sozinhas. A entender a vida com o todo da existência, não somente com a racionalidade da cabeça. Disso se explica, e muito, a raiva que as pessoas autoritárias tem da arte e de quem a traz ao mundo, em todas as suas formas. Por isso que em momentos confusos da história, como primeiro passo, cria-se nos artistas os primeiros inimigos. Não é uma coincidência, é um método. A arte nos coloca mais perto das perguntas necessárias que das certezas absolutas.

"Podem até maltratar meu coração
Que meu espírito ninguém vai conseguir quebrar"
Um dia perfeito

Se não fossem as letras do Renato, eu não teria a curiosidade em saber quem foi a Ordem dos Templários, o seu papel histórico. Baader-Meinhof, quem foi e o que queriam. Que a Montanha Mágica, além de música, é um dos romances mais influentes da literatura, escrito pelo Thomas Mann. Possivelmente, até hoje, eu não teria pesquisado sobre Andrea Doria, sabido que foi um navio italiano batizado em homenagem a almirante genovês, que naufragou em julho de 1956. E, também, mais uma música.

"Quem pensa por si mesmo é livre
E ser livre é coisa muito séria"
L’Avventura

Renato construiu uma obra atemporal, e isso é muito difícil de fazer. Mesmo quando falava de coisas que aconteciam no seu agora dos anos 1980, 1990:

"Vamos sair, mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos estão procurando emprego
Voltamos a viver como a 10 anos atrás"
O Teatro dos Vampiros

Ele estava falando sobre um futuro que nem chegou a viver, os anos 2020:

"Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação"
Perfeição

Renato e a Legião deram aulas de história do Brasil, que nem a escola dava:

"Cortaram meus braços
Cortaram minhas mãos
Cortaram minhas pernas
Num dia de verão
Podia ser meu pai
Podia ser meu irmão"
1965 (Duas Tribos)

E já contavam que todas as formas de amor e amar são o impossível acontecendo diante dos nossos olhos, um pouco de futuro. Às vezes dizia isso de maneira direta:

"Gosto de São Francisco e São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas"
Meninos e Meninas

E às vezes, não, daí é com quem escuta:

"Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo
De amargo então salgado ficou doce
Assim que o teu cheio forte e lento
Fez casa nos meus braços e ainda leve
E forte e cego e tenso fez saber
Que ainda era muito e muito pouco"
Daniel na Cova dos Leões

Renato me entregou, talvez, a primeira trilha sonora para as minhas utopias:

"Nosso dia vai chegar
Teremos nossa vez
Não é pedir demais
Quero justiça
Quero trabalhar em paz
Não é muito o que lhe peço"
Fábrica

E aquele que parece ser, infelizmente e ainda hoje, o nosso verdadeiro hino nacional:

"Terceiro mundo se for
Piada no exterior
Mas o Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios* num leilão"

Que pais é esse?

Foi ele e a Legião que colocaram em palavras o que senti ao me sentar numa sala de aula, lá atrás. O que me fez caminhar por onde caminho até hoje, em busca dessa educação que caiba todo mundo e não faça brotar mais dores e letras assim:

"Ainda me lembro aos três anos de idade
O meu primeiro contato com as grades
O meu primeiro dia na escola
Como eu senti vontade de ir embora
Fazia tudo que eles quisessem
Acreditava em tudo que eles me dissessem
Me pediram para ter paciência
Falhei. Gritaram cresça e apareça

Cresci e apareci e não vi nada
Aprendi o que era certo com a pessoa errada
Assistia o jornal da TV
E aprendi a roubar pra vencer
Nada era como eu imaginava
Nem as pessoas quem eu tanto amava"
O reggae

Um dos problemas de chegar numa banda anos depois do seu fim é que você tem contato com a interpretação que fazem sobre ela, tem pouca ou nenhuma chance de produzir afeto em primeira pessoa. Por isso, não foi somente Wagner Moura que subiu ao palco anos atrás, em São Paulo, para aquele show tributo. Foi cada um, cada uma de nós que nunca poderá mais ir a um.

Obrigado, Dado. Obrigado, Bonfá. Obrigado, Renato. O mundo anda tão complicado, eu sei, mas o Brasil ainda é o país do futuro. E nosso dia vai chegar, teremos nossa vez. Feito ele escreveu, feito eles cantaram. Sempre em frente, não temos tempo a perder.


** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Site Naã Ramos.

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